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quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Os pratos da balança

Como em todas as decisões na vida temos sempre de pesar os prós e os contras das nossas atitudes, das nossas decisões e assumir a decisão que poderá mudar a nossa vida para sempre. Eu assumi a minha aos 25 anos. Quando ainda me sentia muito menina dos meus pais e quando ainda precisava de mimo. A decisão já martelava à muito na minha cabeça. Talvez desde sempre até pois sempre me imaginei em aviões e a ter o aeroporto como uma segunda ou terceira casa. Apenas pensei que o meu porto seguro seria para sempre em Portugal e a vida nisso trocou-me as voltas. Não sai antes porquê?

Não foi por falta de oportunidade. Foi porque a minha pessoa, a minha avó/mãe na altura era vida e eu não me sentia capaz de cortar o laço que nos unia. Não conseguia e não queria. Por ela abandonei um Erasmus a 1 semana da partida. Por ela passei as aulas para regime nocturno, abandonei temporariamente um emprego em part-time para a acompanhar no último ano de vida dela. Na altura a balança pesou para ficar e eu fiquei.

Em Junho e com 25 anos, exactamente 1 anos após a sua morte tive a primeira entrevista para iniciar a minha viagem. Por sorte ou por "obra dela" fiquei logo colocada e em Outubro soltei as amarras do meu cais e deixei-me vir. Deixei pais, namorado, irmãos, família. Deixei os abraços diários e os beijos repenicados da família a troco de experiência profissional, mais salário mas acima de tudo mais oportunidade de evolução e reconhecimento do meu trabalho. Deixei um emprego estável (ia passar aos quadros) por uma maluqueira como me disseram na altura. Fiz o meu destino e peguei a MINHA vida e coloquei-a nas mãos que quem melhor sabe olhar por ela. EU!

Não esperei ajuda do estado, nem de ninguém. Não esperei por pena ou simpatia. Apenas pedi que aceitassem as minhas escolhas. E que me apoiassem caso fossem meus amigos e família de verdade. O pior dia da minha vida foi o dia em que embarquei naquele avião. Tremia e chorava. Sem saber o que me esperava à chegada. Mas tentei (se bem que sem sucesso) engolir as lágrimas e vim viver a minha vida. Na altura tinha a esperança que ao voltar teria à minha espera as pessoas que realmente iria valer a pena abraçar. Quem não estivesse lá tinha por fim mostrado que deveria ser riscado da minha vida. O meu maior medo era perder o G, mas sabia que esta distancia também iria servir para reforçar o que existia entre os dois, ou para quebrar de vez a relação caso a este fio fosse fraco.

Ao fim de 2 meses ele estava cá à minha espera. Aliás estava já de passaporte na mão e malas feitas pronto a embarcar nesta minha, agora tão nossa aventura. Saímos na altura em que já se falava em crise. Não estará Portugal em crise desde sempre?

Assistimos a negócios do arco-da-velha, a contractos ruinosos feitos pelo “nosso” governo, assistimos à queda de um governo e ao nascimento de outro. Assistimos a manifestações. E o que fazemos? Rimos. Porque para nós Portugal tem o Governo que merece. Portugal tem o Governo que os Portugueses escolheram. Toda a gente se queixa da chico-espertice dos governantes e políticos. Mas será que fazem o certo?

Acredito que exista pessoas boas em Portugal. Pessoas que se interessam e que pagam os impostos e tudo o que devem pagar a bem da evolução do País. E os outros? Os que vivem à mama dos subsídios, os que têm esquemas onde descontam salário mínimo mas vivem em cascais, ou na quinta-do-conde e têm uma colecção de mercedes à porta? E aqueles que dizem não que trabalhar e andam a fazer perninha nas obras, nos biscates ou nas limpezas? Pois ninguém fala deles. Mas não serão estes a maioria? Aqueles que atiram pedras ao Governo mas que depois também têm telhados de vidro.

O que o Governo faz apenas é um aumento para grande escala do que os Portugueses fazem. Olhar apenas para os seus umbigos e tentar tirar o máximo de vantagem em proveito próprio de toda e qualquer situação. Quando o povo resolver ir ao centro de emprego ou segurança social e informar: “Tirem-me das listas de desemprego, tirem-me o RSI, afinal eu trabalho, eu produzo, eu quero participar activamente na economia e desenvolvimento deste país”, nesse dia poderemos exigir mundos e fundos do nosso governo e poderemos enfim começar a atirar pedras. Aí sim os senhores governantes abrirão os olhos e verão que já não estão a gerir um povo, inculto, ignorante e que só olha para o umbigo.

Neste ultimo ano tenho sido atacada, contestada por amigos, família e conhecidos. Todos me acusam à boca cheia que só falo assim porque estou bem na vida. Tenho contrato, tenho boa vida ponho comida na mesa para sustentar a minha casa. Sim tenho isso tudo.

Mas o que eles se esquecem é que não tenho um beijo da minha mãe todos os dias. A Matilde está a crescer sem avós. Vejo o meu avô ter um AVC, perder uma perna por causa dos diabetes. Perder a outra perna e entrar em depressão. Viver com o coração nas mãos sem saber se irá sobreviver até ao dia da próxima viagem. Deixe a minha irfilha com 15 anos, numa altura que ela mais precisava de mim. Sim também eu pago um preço. Não um preço monetário mas um preço sentimental. Qual valerá mais. Será menos válido só porque não esse preço não é contabilizado com vil metal?

Oportunidades todos temos. Resta a cada um de nós pesá-las na balança e ver qual a atitude que deve tomar. Pegas na vida nas próprias mãos e deixar-se de queixar do que a vida não lhes dá. E não me venham foder a cabeça com o “tu não percebes”. Percebo até bem demais.

Percebi-o há 6 anos e sei que na MINHA altura tive coragem e arrisquei. E a vida apenas me deu o que dela eu exigi.

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